Jerri Almeida – Professor, dirigente da S.E.Amor e Caridade, Osório/RS.
“Só com o tempo e o estudo se adquire o conhecimento de qualquer ciência. Ora, o Espiritismo, que toca nas mais graves questões de filosofia e em todos os ramos da ordem social, que abrange tanto o homem físico quanto o homem moral, é, em si mesmo, uma ciência, uma filosofia, que já não podem ser aprendidas em algumas horas, como nenhuma outra ciência.”i
Allan Kardec
A filosofia espírita, por sua natureza progressista, racional, ética e humanista, constitui uma teoria capaz de descolonizar o pensamento, libertando-o para novas perspectivas culturais. Não seria demais afirmarmos que Kardec, na sua condição de pedagogo, imprimiu ao espiritismo uma essência iluminista, livre de dogmatismos e de verdades fechadas. As análises críticas e as revisões historiográficas, ao logo do século XX, levaram à derrocada das teorias totalizantes, que tentavam, por um único caminho, dar conta da complexidade humana, social e existencial. O conhecimento é múltiplo!
É necessário, com base nesse pressuposto, que os espíritas reflitam sobre o sentido que, normalmente, atribuem ao espiritismo, apresentando-o como uma doutrina fechada, com respostas prontas, acabadas e, não raras vezes, simplistas, para os grandes dilemas da existência. É certo que o dinamismo da obra kardequiana não foi esgotado. Provavelmente, ainda estamos muito longe de absorver todo o seu potencial filosófico, humanitário e educacional. Todavia, tal conclusão não pressupõe o fechamento para o diálogo com outras áreas do conhecimento. Pelo contrário, a filosofia espírita dialoga, sem nenhum problema, com os mais diversos campos do saber.
A teoria da complexidade defendida, entre outros, pelo sociólogo francês Edgar Morin, torna fundamental a articulação orgânica do conhecimento. O saber científico jamais se desenvolve isoladamente. O conhecimento espírita precisa estar integrado, contribuindo com sua teoria, na sociedade do século XXI. Isso não significa a perda de sua identidade, mas de sua inserção no conjunto do saber humano.
Lamentavelmente, um segmento do movimento espírita brasileiro, ainda predominante, transformou o espiritismo em mais uma expressão dogmática/salvacionista, na via contrária ao que Kardec imaginava. A voz kardequiana foi abafada pelas supostas novas revelações, provindas de médiuns e de espíritos que ditaram suas verdades (religiosas) inquestionáveis. O que poderia ser um novo movimento cultural tornou-se uma reedição dos arcaicos e superados modelos de pensamento, fundados na crença, no medo e no proselitismo.
O século XXI exigirá muito mais do espiritismo. Acadêmicos estão, cada vez mais, descobrindo Kardec. Espíritas progressistas, pesquisadores e historiadores se voltam para o espiritismo francês, resgatando sua natureza progressista.
Em tempos de mídias digitais, o intercâmbio entre estudiosos e pensadores espíritas não encontra mais barreiras. O resgate e análise da vasta obra kardequiana e de vários arquivos de documentação primária de Kardec, despontam novos e promissores horizontes para melhor compreendermos o pensamento do fundador do espiritismo.
Talvez, com certo otimismo, estejamos transitando para a superação, ainda que tardiamente, do período religioso do qual falava Kardec. De qualquer forma, o espiritismo – essa bela filosofia no dizer de Amélie Boudet ii
– é protagonista de um paradigma alargado, que reposiciona o Espírito no contexto das Leis Naturais e dimensiona o progresso como condição inalienável da vida.
Na medida em que o pensamento materialista reconheça seus limites epistemológicos, e o dogmatismo religioso os seus limites de crença, o conhecimento vai se despojando de suas representações totalitárias, para um diálogo amigável com o complexo/múltiplo. Como bem posicionou Kardec: “O Espiritismo prende-se a todos os ramos da filosofia, da metafísica, da psicologia e da moral; é um campo imenso que não pode ser percorrido em algumas horas.”
iii A filosofia espírita por sua essência dialógica, progressista e livre-pensadora, propõe uma ruptura com todo e qualquer domínio colonizador no campo das ideias. O espiritismo é, portanto, uma filosofia emancipadora.
i KARDEC, Allan. O maravilhoso e o sobrenatural. In. Revista Espírita, Setembro de 1860. Ed. FEB. p. 400.
ii FROPO, Berthe. Muita Luz (Beaucoup de Lumière) Trad. Ery Lopes e Rogério Miguez . Luz Espírita. página. 20.
iii KARDEC, Allan. O Que é o Espiritismo– Segundo Diálogo – pág. 65

